sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eberhard Wernick


Irradiando energia e iniciativa, o Prof.Dr. Eberhard Wernick, com 71 anos, encontra-se em Cuiabá para participar da programação da Semana de Estudos Geológicos 0rganizada pelo Centro Mato-grossense de Estudos Geológicos da Universidade Federal de Mato Grosso., onde já foi professor lecionando cursos de férias  e é paraninfo de uma das primeiras turmas de formandos em geologia. Relembra esta fase pioneira de formação de geólogos em Mato Grosso com alegria e se orgulha do sucesso de seus ex-alunos.
 Aposentado pela Unesp há 5 anos, o professor continua em plena atividade. ”Uma das vantagens da aposentadoria é a libertação do politicamente correto, sinônimo moderno de patrulhamento”,diz, sorrindo, ”fato que permite fazer fluir suas opiniões diretamente do coração e do cérebro para a boca sem passar por um filtro formal manipulado já que você passa a ser considerado ,quando aposentado, pela sociedade apenas como um peso inútil ”. Não gosta de manifestar-se sobre as diversas honrarias que recebeu durante sua atividade profissional por sua contribuição a geologia e a ciência nacional e sua condição de “imortal” como membro titular da Academia Brasileira de Ciências nem sobre sua última grande obra concluída pouco antes de sua aposentadoria que foi o novo mapa geológico da América do Sul, trabalho que demandou 6 anos e envolveu os serviços geológicos de 21 países.. “Não comento estes aspectos, pois prefiro falar sobre  o significado e o papel da universidade publica ignorado pela maioria dos docentes e pela quase totalidade dos alunos. Para estes a universidade publica é apenas uma universidade gratuita”.Pretende discutir esta problemática com os estudantes de modo informal  e descontraída após a sua palestra sobre inovação tecnológica nas geociências
Após aposentar-se, o Prof. Wernick fundou o que chama de “a menor universidade do país na qual sou ao mesmo tempo reitor, professor, funcionário e, principalmente, aluno, pois ainda tenho muito a estudar’’. Neste contexto dedicou-se nos últimos 4 anos ao estudo de vulcões recentes , ausentes no Brasil, desde o México até o Chile e ministra cursos compactos de graduação e pós-graduação em diferentes universidades. Igualmente integra uma equipe da Unicamp que realiza há 5 anos pesquisas geológicas no Estado do Ceará financiadas pela FAPESP e cujos resultados vem sendo publicados em revistas internacionais de projeção. Desde sua aposentadoria não atualiza sua produção nos sites de órgãos de pesquisa estaduais e federais. “Apenas faço a pesquisa pelo prazer de fazê-la, sem as preocupações curriculares de antigamente” diz. Também orienta mestrandos e doutorandos na Unicamp na qual foi fundador do seu Instituto de Geociências assim como foi um dos criadores do curso de geologia e do curso de pós-graduação em geociências da UNESP em Rio Claro ,cursos com os quais seu nome se identifica ainda hoje ao nível nacional .
Acaba de concluir mais um livro; o término de outro está previsto para o fim do ano, pois assim como lê simultaneamente 3 livros de assuntos bem divergentes “visando sempre estabelecer correlações interdisciplinares“, também escreve simultaneamente mais de um livro.”O livro didático é de importância fundamental para o ensino pois permite ao professor dedicar, em classe, mais tempo e ênfase aos conceitos e aspectos que considera mais importantes no âmbito da disciplina que leciona”. Orgulha-se de sua recente escolha como um dos três melhores professores do país pelos alunos dos mais de 20 cursos de geologia do país .“Mais de 50% do sucesso de uma aula é motivação ao lado do intenso envolvimento dos alunos por meio de contínuas perguntas. O aluno tem que ser informado claramente sobre a importância do assunto lecionado, confrontado com os problemas que o assunto exposto é capaz de resolver e deve existir clara conexão com os assuntos previamente abordados para que o estudante tenha percepção entre o tipo de problemas que era capaz de resolver antes e após a aquisição do novo conhecimento. A aula deve terminar com uma crítica ao conhecimento examinado, ressalto dos vazios de dados na área do assunto exposto e incluir algumas propostas de pesquisas adaptadas ao conhecimento do estudante. Achar que uma aula tipo “power point” na qual o professor lê o texto projetado é a última conquista pedagógica é um enorme engano pois tão importante quanto o material didático é a competência e o comprometimento do professor em garantir o aprendizado do aluno e sua atuação como exemplo para os jovens”. “Além disso”, diz o Prof. Wernick, ”o assunto exposto tem que ser modificado cada ano”. Lembra com satisfação os casos em que alunos de pós-graduação, já aprovado na disciplina, assistiam as suas aulas em 2 ou mesmo 3 anos consecutivos dada a contínua mudança do foco da disciplina lecionada, sempre adaptado as dissertações e teses dos alunos presentes.
Atua também como gerente de pesquisas tecnológicas da SUDOTEC, a Agência de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial do Sudoeste do Paraná e como assessor do SEBRAE do estado do Paraná para a implantação, diversificação e valorização de Sistemas Produtivos Locais e no aprofundamento do conceito “Territórios Competitivos”, fundamental para o desenvolvimento sustentável “Essas atividades são fascinantes” diz “pois unem conhecimento científico e tecnológico com aplicações econômicas e sociais. Colocou-me em contato com o mundo industrial que previamente só conhecia de passagem”.
 O Prof. Wernick ainda executa “com apenas mais alguns da minha geração” regularmente trabalhos de campo. É uma atividade que o fascina. ”Rochas são complexos sistemas físico-químicos naturais, mas como tudo neste mundo, tem alma. São as minhas tias, freqüentemente com bilhões de anos, que tem muitas histórias para contar. É só prestar atenção nos seus relatos por meio de minuciosas observações combinadas com sólidos conhecimentos geológicos” diz o professor, sem esconder o seu entusiasmo. Além dos trabalhos de campo ligados a suas pesquisas, o Dr. Wernick recebe continuamente convites de companhias para assessorar seus geólogos no campo e pedidos para ministrar cursos teórico-práticos no campo. ”Infelizmente as novas gerações perderam muito em capacidade de observação devido ao excesso de televisão, computadores e outros fatores que desviam sua percepção dos fenômenos e processos naturais” argumenta o pesquisador “mas é com prazer que treino estes jovens no campo ensinando-lhes as bases da observação e da interpretação das rochas. Orientá-los na execução sistemática de observações, transformar as observações em dados físico-químicos e, finalmente, interpretar estes dados evocando com riqueza de detalhes processos geológicos que ocorreram milhões de anos atrás, é uma atividade fascinante, de detetive naturalista”. Sua já quase lendária capacidade de interpretação de rochas lhe rendeu a alcunha de ”Merlim da Geologia” por parte de seus colegas e ex-alunos e materializada por meio de uma estátua do mago celta oferecida por colegas do IBGE, CPRM e DNPM.
Atuando na “menor universidade publica do país” o Prof. Wernick tem se dedicado a problemas institucionais universitários. A pedido do governo de Estado do Paraná realizou o projeto de uma universidade virtual para o Mercosul. A evolução desse projeto ao nível federal apenas resultou na recente criação da UNAL , a Universidade da America Latina ,em Foz de Iguaçu. Atualmente trabalha em projeto de integração de várias universidades da Amazônia com ênfase na vinculação das centenas de ONGs que ali atuam, a maioria sem qualquer controle oficial, às instituições de pesquisas estaduais e federais.
As numerosas atividades em vários locais do país e do exterior exigem do Prof. Wernick constantes viagens e freqüentes ausências de Rio Claro. Recentemente esteve na Colômbia onde estudou o ciclo de processamento das esmeraldas, pois está envolvido na implantação no Estado do Paraná do Centro Tecnológico Ametista como centro de formação de marteladores e lapidadores de ametistas, treinamento de artesões, incubadora para pequenos empresários ligados ao beneficiamento das ametistas sob forma de artesanato, pedras lapidadas e jóias, geração de um ambiente de negócios, uma central de coleta de dados estatísticos sobre produção e análise de mercado de ametistas no país e no exterior, avaliação e certificação de jóias, etc. Projeto este que acaba de receber mais R$ 300.000,00 do Ministério do Trabalho.
No Peru visitou  recentemente a cidade de Caral que com 5000 anos é a cidade mais antiga das Américas e “que representa o único caso ao nível mundial de construções megalíticas piramidais executadas antes da invenção local da cerâmica” diz o Prof. Wernick, cujos hobbies são entre outros a arqueologia, a história da civilização, a filosofia e a simbologia. Entre os filósofos destaca Kant, para ele ”o pai da lógica e que deveria ser leitura obrigatória para todo estudante universitário. Kant abordou uma enormidade de problemas científicos, conceituais, sociais, políticos, éticos e teológicos, mas também mostrou claramente os limites da lógica. Com esta ferramenta, por exemplo, não é possível afirmar ou negar a existência de Deus e, conseqüentemente, Kant criou o conceito de metafísica para responder a esse tipo de perguntas“ diz o professor. ”É aí que entra o outro grande filósofo, Nietsche, que lamenta a morte do mundo simbólico e suas conseqüências com o advento da lógica grega Mundo incorporado pelos estudos mitológico de Campbell e incorporado em termos psicológicos por Jung para quem a essência psicológica do homem não se vincula a um cérebro brilhante, o medidor consciente do ego, e, sim, à força dos seus símbolos, a linguagem do inconsciente com o qual nos comunicamos por meio dos sonhos. Vivemos num mundo mercadológico simbólico total. Antigamente, apenas a igreja vendia Deus simbolizado pela cruz, o exercito a segurança, simbolizada pela espada e a universidade a sabedoria e o conhecimento, simbolizadas pela coruja. Hoje estas instituições têm a concorrência de companhias que transformam seus logotipos em símbolos da felicidade perene sob suas múltiplas manifestações, caso do sucesso, da juventude, do amor perfeito, da elegância, da alegria, da auto-afirmação, da admiração, etc. È o consumismo levado ao extremo de sua vertente psicológica”, diz.
Durante suas numerosas viagens pelo país e para o exterior, o Prof. Wernick reuniu numerosas peças que hoje integram a decoração de sua casa, transformando-a “num museu habitável” como diz. “Andando pela casa passo da cultura indígena para a cultura nórdica, da cultura mediterrânea para a cultura asiática, do presente ao passado, do moderno ao antigo. Esta passagem por múltiplos mundos virtuais implementa a minha imaginação e facilita a solução dos problemas dos quais estou tratando. Para mim foi uma surpresa ao visitar recentemente a casa de Neruda em Valparaiso, no Chile. A sua aparentemente desorganização e mistura de estilos lembra muito a nossa e os argumentos para a escolha deste tipo de decoração dele são, melhor, foram, iguais aos meus. Também Neruda adorava vagar pelas praia catando tranqueiras trazidas pelas ondas. Mas a comparação para aqui”,  diz, sorrindo,  ”Neruda foi um gênio....”.  A casa sempre está aberta aos amigos e aos estudantes e fico muito feliz quando estes vem mostrar as primeiras poesias para sua mais nova paixão, discutir os seus sonhos e suas inseguranças, bater um papo alegre, discutir sistemas sociais, etc. Indicam que as minhas relações com os estudantes transcendem a simples convivência no campus universitário” Relações que se fortificam cada ano mais com sua participação, a convite,  dos sucessivos encontros anuais dos estudantes dos cursos de geologia do Brasil (ENEGEO).
A diversificada vida do Prof. Wernick exige um enorme dispêndio de energia ainda mais por ser portador e aplicador do “toque”, uma característica mediúnica que considera um dom de canalização de energias. Recupera estas ao lado de sua esposa, Dra. Anneliese Wernick, sua “eterna musa”, em sessões de meditação e nas alegres horas que se associam ao futebol jogado sábado a tarde no time de seniores da UNESP quando presente em Rio Claro. Adora brincar com suas 4 netas, um churrasco, uma pescaria, um bom papo, música, livros e tudo mais que alegra a vida de um homem muito romântico.
O Prof. Wernick não se nega a citar algumas frases que nortearam a sua vida até agora, tão cheia de realizações. Uma é “viver é a capacidade de ter sonhos e tentar realizá-los independentemente do sucesso desta empreita”. A vida é tão maravilhosa, tão fascinante, tão múltipla que aquele que perde a capacidade de sonhar, de brincar, de preservar um pedaço da sua porção criança, da sua inocência, está pronto para o caixão. Outra é “cada novo dia é o primeiro do resto da nossa vida”. A cada dia novo podemos iniciar uma nova jornada, modificar os nossos valores, deixar passagens menos agradável da nossa vida para trás, renovar as esperanças e a alegria de viver, ser mais leal, justo,amoroso e compreensivo. Também destaca a frase ”dias luminosos: não chore por terem terminados; sorria por terem existido”. As reminiscências agradáveis não devem ser motivo para comparações com o estado atual. Devem servir de estímulo para a criação de novos momentos de realização no decorrer das sucessivas etapas da nossa vida que sempre se irão desenvolver sob novas condições até então desconhecidas. É o contínuo fascínio da vida.

Um comentário:

  1. Que texto maravilhoso sobre a vida é filosofia de vida desse grande Homem que acaba de partir! Uma ótima reflexão para os que ficam... Pessoa inspiradora, que Deus possa consolar os familiares.

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